10. EXP. 2 Bons e maus sonhos

Em Agosto iniciei uma colecta de sonhos e pesadelos relacionados com a(s) actividade(s) exercida(s). A informação que vem do subconsciente reflecte aspectos do indivíduo, mas também do colectivo. Diferentes pessoas têm, recorrentemente, os mesmos sonhos (ou os mesmos medos), aparentemente infundados. Dedicamos uma grande parte do nosso tempo à actividade que desenvolvemos e é através desta que estabelecemos relações que vão moldando a nossa forma de ser. Muitos estão também sujeitos a uma grande pressão, que se manifesta em ansiedade. Por vezes, é ainda onde contactamos com as realidades mais duras da sociedade e onde exercemos empatia. Ou pode ser onde realizamos sonhos e perspectivamos futuros melhores. Raramente partilhamos o que sonhamos. O que acontece numa relação quando partilhamos com o outro algo tão íntimo quanto misterioso? Partilharias alguns dos teus sonhos ou pesadelos comigo? Podes fazê-lo através do Servidor de Discord de Grito imagens. O material fornecido poderá vir a ser matéria anónima para o corpo e o movimento em Ateia.

Alguns dos maus sonhos associados à minha principal actividade, a dança, misturam-se com medos e ansiedades da infância e ainda hoje são recorrentes, ainda que pouco frequentes. Têm que ver sobretudo com o medo de falhar: não estar pronta a tempo para ir para palco, ter que substituir alguém sem saber ou sem me lembrar da coreografia. Talvez o pesadelo em que, numa situação de aflição, consigo correr mas não consigo gritar esteja, também, relacionado de alguma forma; um corpo capaz à procura de voz. Em 2008 sonhava cada semana que havia uma ou várias serpentes que me perseguiam com o objectivo de morder o meu tornozelo. Eu fugia e no momento em que me mordia acordava agitada e dorida no ponto da picada, como se a dor fosse real. Coincidiu nesse ano trabalhar como intérprete numa cavalgata que tinha por nome El despertar de la serpiente. Os sonhos ainda continuaram, penso que até ao ano seguinte, até que um dia, em pleno sonho, tive o discernimento de parar e perguntar à serpente: o que é que ainda estás aqui a fazer? Desaparece! A partir dessa experiência deixei de ter estes pesadelos, às vezes ainda aparecem vestígios, mas as serpentes agora são inofensivas, apenas estão lá. Estes são os maus sonhos. O sonho bom é aquele em que sonho que estou a fazer piruetas que, ao contrário da vida real, não acabam. O equilíbrio e a postura são perfeitas, nem o chão nem o ar oferecem qualquer tipo de resistência e a sensação de suspensão é de uma leveza que me dá um prazer imenso. Giro até acordar. Num outro sonho, desta vez pontual, sonhei conseguia saltar muito e um professor me dizia que a minha data de nascimento era o dia 15 de Abril. Eu dizia-lhe que não, não era, e ele reforçava que sim, que era. A verdade é que nunca mais me esqueci dessa data. Gosto de me lembrar daquilo que sonho, mas não faço grandes interpretações nem escrevo um diário de bons e maus sonhos. Gosto simplesmente de acordar com eles, com as histórias que me contam através de personagens que, muitas vezes, me são familiares. Isso diverte-me.

Hoje em dia alimento um caderno de colagens ao qual chamo eu vírgula estou aqui. É uma outra forma de cultivar criatividade e reflexão através de um processo que envolve o subconsciente e que procura uma comunicação com sentido e a expressão de uma voz. É como se fosse um exercício para perceber de onde vêm as ideias. Aqui podes ver as imagens de algumas dessas colagens que, a maior parte das vezes, são muito simples.