4. Literatura

Literatura, como dança, é imaginação. Existe uma relação íntima entre estas duas formas de comunicação: há quem dance porque não tem palavras e quem escreva porque não dança. O corpo ocupa um lugar na literatura. Gonçalo M. Tavares afirma que, para si, escrever é um verbo físico como andar e saltar. Para Maria Teresa Horta escrever é algo erótico. A palavra escrita, como o gesto, não quebra o silêncio, mesmo que contenha em si um grito capaz de transformação. Silêncio como o espaço mental necessário para a imaginação.

corpo—espaço—silêncio—palavra
palavra—silêncio—espaço—corpo

Recentemente li a Trilogia dos Lugares Sem Nome de João Tordo e O filho de mil homens de Valter Hugo Mãe. Tem sido vital para mim lê-los e parece-me fundamental este exercício de humanidade. No texto literário encontra-se reflectida a profundidade e densidade da experiência humana. E denso não é necessariamente sinónimo de triste, pode haver a maior das densidades na mais bela das coisas. Gosto das palavras e das frases que compõe quando combinadas. E das ideias, e das metáforas, e das descrições, e do detalhe, e do sensível, e do subtil… Para além da densidade e da profundidade, pergunto-me que papel podem ter também a gramática, as figuras de linguagem e a retórica na improvisação e composição em dança.

Tenho uma relação com as palavras desde que me lembro. Ler é uma forma de ter acesso a outros mundos interiores que, ainda que ficcionados, têm verdade e, assim, a capacidade de provocar empatia. O mesmo motor que me leva a ler é o mesmo que me leva a escrever. Escrevo numa tentativa constante de entender o mundo por palavras minhas. Preciso de colocar as palavras ao serviço de um todo. Escrevo sobre projectos nos quais participei como intérprete ou espectadora, para projectos meus, e escrevo contos, letras para canções e micronarrativas. Todos são pequenos satélites que orbitam o meu pensamento. A minha perspectiva prende-se sobretudo com a relação entre a literatura e a dança, sendo a principal matéria a voz do corpo. O que faço não é literatura. Escrevo sem essa pretensão, mas com a mesma minúcia e afã daqueles que a ambicionam. Continuo a ler, sobretudo, porque existe quem tão bem o faça e porque me faz tão bem.

Na procura de palavras que dêem corpo à narradora, deparei-me com O relato desconhecido, uma sucessão de textos em modo de autoficção, que escrevo com o intuito de traçar um perfil psicológico e de acção da personagem. O futuro deste relato e o contexto em que as palavras se manifestarão, é ainda uma incógnita. Começa assim:

Estava a pensar, a seguir um qualquer fio que perdi. Foi assim que apareceram as primeiras palavras deste relato que se desconhece.

Poucos dias antes da publicação desta entrada, ouvi a poeta, escritora e editora Maria do Rosário Pedreira no podcast A Beleza das Pequenas Coisas. Uma boa coincidência e um bom estímulo para a reflexão. Também recomendo a série documental Herdeiros de Saramago da autoria de Carlos Vaz Marques e com realização de Graça Castanheira.