11. EXP. 3 O relato desconhecido

O relato desconhecido é a primeira experiência audiovisual de Ateia, combinando palavras, voz e corpo em vídeo. Comecei a escrever com o intuito de traçar um perfil psicológico e de acção da personagem.

O processo até à estreia do Capítulo 1 consistiu nas seguintes fases: escrita de vários capítulos, para perceber a forma e direcção que estavam a tomar, gravação da voz e, posteriormente, registo de vídeo e edição. Estes passos são continuamente replicados, para a produção de novos capítulos.

O relato desconhecido apresenta uma personagem que alterna entre estados de reflexão e acção, acompanhados pelo som do seu pensamento. Inserida em diferentes contextos, mantém uma intenção clara de interpelar uma ouvinte/espectadora —acabando, na realidade, por interpelar aos ouvintes/espectadores em geral—, que a acompanha num discurso caótico de quem procura a sua voz. Uma personagem do conto Marido de Lídia Jorge serviu de mote para as circunstâncias iniciais desta personagem. Foram estas mesmas circunstâncias que me provocaram a vontade de imaginar um futuro diferente para ela. À parte dessa inspiração inicial, o texto, se é que tem algum género, aproxima-se da auto-ficção.

Ao nível da performance, interessa-me que a base seja a improvisação no tempo e no espaço: improvisação a partir de estímulos como palavras e paisagens sonoras com tempo para que as coisas possam acontecer. Podem ser necessários 10 minutos de improvisação para 10 segundos de vídeo. Optei por realizar o primeiro capítulo no interior, um lugar de intimidade, para depois, em capítulos futuros, ocupar o espaço público, tendo em conta a situação actual de pandemia e as condições climatéricas.
A banda sonora para cada momento, ainda que não esteja presente no vídeo como tal, é fundamental para chegar a estados. A música e o que esta provoca dentro, a par das palavras, tem que ser mais forte do que a presença da câmera que tende a provocar um acrescido julgamento e foco na forma. Dançar para a câmera é uma aprendizagem. Gravar às cegas, na medida em que me gravo a mim mesma, é um grande desafio, que também requer aprendizagem. No primeiro capítulo, a câmera manteve-se fixa, mas a ideia é ir desenvolvendo estratégias para conseguir outras dinâmicas ao nível do movimento da câmera. A composição em si é feita no momento de edição, a partir de recursos como: seleção de cenas e planos, repetição, pausa, velocidade, etc.
A narrativa é construída através da combinação de texto e imagem: a imagem não está feita para ser vista sem a voz, nem voz para ser ouvida sem a imagem. Ainda tenho dúvidas se o texto está feito para poder ser lido apenas. Outra característica desta série de vídeos, que contribui para a narrativa, é a presença, sempre que possível, de símbolos: de movimentos sociais, da actualidade ou relacionados com algo que tenha presenciado dias antes da filmagem. No caso do Capítulo 1, reuniram-se as duas primeiras condições. Nesse sentido, é possível que sejam introduzidos objectos que começarão a fazer parte do imaginário de Ateia.

O primeiro vídeo estará disponível para visualização desde o momento da sua estreia. Os capítulos seguintes poderão ser vistos primeiro no Patreon e, mais tarde, serão publicados nesta mesma página, ficando disponíveis para todos.

O relato desconhecido
Capítulo 1
Janeiro 2021