59d

No dia 24 de Dezembro de 2019 comecei a captar em vídeo pedaços de quotidiano, utilizando o telemóvel. Decidi fazê-lo durante 59 dias, numa espécie de interpretação instantânea da realidade.
Sem serem muito reveladoras do meu corpo, estas imagens revelam partes da minha intimidade: olhar, lugares, pessoas, estados de ânimo, paisagens, aspirações. Estão presentes, também, vestígios que denunciam a minha presença, como: passos, cabelos e sombras. O que me chama a atenção e porquê? Como vejo? Mais tarde pude observar a existência de temas recorrentes, ainda que apresentados de diferentes formas. A luz, os sons, as cores, as texturas e as formas assumem uma grande relevância, sendo os verdadeiros protagonistas a par dos eventos.
Uma das premissas deste projecto consistiu em gravar apenas quando algo realmente o pedia, sem a obrigação de fazer registos diários ou semanais. Estes eram momentos de abertura, de sair para o mundo. Também houve momentos em que a experiência era mais importante do que filmar e tornou-se importante a capacidade de distinguir os dois. Nenhum momento foi encenado, houve uma aceitação da realidade tal como esta se apresentava. Andar é a principal acção presente ao longo do filme, transportando para a ideia de movimento, continuidade e passagem do tempo.
As imagens foram organizadas por ordem cronológica e sem qualquer tipo de filtro. O principal trabalho de edição prendeu-se com a seleção dos momentos registados e a sua duração, que ditava o ritmo do filme. Os momentos de ausência de som funcionam como janelas para abrir espaços, transportando para o interior, para os ruídos que estão presentes no espaço do espectador ou para a sua própria respiração. À medida que ia colocando os ficheiros por ordem, ia crescendo em mim uma curiosidade inevitável de saber o que se seguiria, como se estivesse a desenhar o meu destino, ainda que com minutos ou dias de atraso. No final, apercebo-me dos principais temas presentes: natureza, industrialização, transformação, solidão, grupo, viagem. Este documentário é um reflexo do que foi a minha vida neste período de tempo, que, sem a documentar, teria sido exactamente a mesma, mas talvez não exactamente o mesmo…
Obrigada a todos os que me acompanharam e aos que viram o documentário e leram este texto, construindo as suas próprias conclusões.