Tema
Lavadouro é um projecto documental em construção que procura contribuir para o reconhecimento dos lavadouros públicos, mapeando-os, fotografando-os e dando-lhes visibilidade.
Questão/problema
Que lavadouros públicos existem no concelho de Vila do Conde? Onde? Quantos ainda estão em uso? Como gerar novos espaços de encontro em volta da água?
Intenção/objectivo
A ideia de iniciar um projecto sobre lavadouros surgiu no início de 2025, após a leitura de um artigo sobre a recuperação de lavadouros públicos em Lisboa, alguns deles transformados para acolher residências artísticas. No mês seguinte, fotografar um lavadouro em Boticas recordou-me que estes são lugares que já fotografo desde 2013. Esta constatação levou-me a questionar o que me faz deter neles o olhar, sendo espaços tantas vezes invisibilizados.
O principal objectivo é contribuir para o reconhecimento da importância dos lavadouros públicos, através do seu mapeamento, documentação, transformação e visibilização.
A principal motivação para situar este projecto em Vila do Conde foi a verificação da inexistência de um arquivo fotográfico dedicado aos lavadouros deste concelho. No Arquivo Municipal é possível encontrar alguns documentos relativos a lavadouros públicos, onde constam dados como: ano de construção, localização, materiais utilizados e responsáveis pela obra, mas a ausência de imagens é gritante.
Vila do Conde é também o lugar onde cresci e onde vivo e vejo este processo como uma oportunidade para conhecer melhor freguesias do concelho que praticamente desconheço.
Desde o início, a minha intenção foi promover a transparência, abrir o processo, e partilhar o conhecimento. O site aparece como uma galeria digital dinâmica e em constante transformação.
Palavras-chave
Água, transparência, luz, reflexos, comunidade, cuidado, partilha, género, diálogo, arquitectura, proximidade, refúgio, tempo, utilidade, recuperação, transformação, abertura, democratização, descentralização e espaço público.
Contextualização
O lavadouro público surgiu inicialmente em Paris, no século XIX, e não tardou a espalhar-se por toda a Europa. Alguns são autênticas obras de arte. Em Portugal os lavadouros surgiram com maior densidade no Norte, devido ao desenvolvimento da indústria têxtil. A “revolução da água” desempenhou funções muito importantes na sociedade, nomeadamente ao nível da higiene. Os lavadouros vieram facilitar o acesso à água potável, antes recolhida directamente dos cursos de água, e melhorar as condições de trabalho das lavadeiras. Em vez de lavarem a roupa de joelhos no rio, passaram a fazê-lo de pé, em tanques cobertos. Além disso, alguns destes espaços proporcionavam locais para estender a roupa nas proximidades, evitando que tivessem de transportar à cabeça o peso da roupa molhada. Numa época em que eram afastadas do espaço público, os lavadouros tornaram-se para as mulheres lugares de refúgio, de discussão, de diálogo e interacção com outras mulheres da sua comunidade, ainda que associados à realização de uma tarefa doméstica e à vista de todos. A posterior “domesticação da água” levou ao enfraquecimento destes laços tão importantes.
Ainda que alguns dos lavadouros já não sejam usados para a função para a qual foram criados, continuam a ser bens arquitectónicos de uso municipal, localizados em espaços públicos ao serviço dos cidadãos.
A água no espaço público não se limita a uma função utilitária, está associada também a lugares de encontro, de memória e de partilha. Olhando atentamente para a relação entre água, ecologia social, espaço público e arte, percebe-se que estes elementos estabelecem um diálogo profundo, num ciclo contínuo em que cada um influencia e é influenciado pelo outro. A presença da água pode transformar um lugar num cenário para experiências colectivas.
O espaço partilhado surge como um território essencial para a interacção social, entre conhecidos e desconhecidos, que presta serviços e gera valor, independentemente de se enquadrar em padrões convencionais de estética ou qualidade. Quando as pessoas se conectam em rede, de forma horizontal, abrem caminho para processos mais democráticos. O desafio está em encontrar formas de habitar e cuidar desses espaços com sensibilidade, reconhecendo o seu potencial como agente de ligação.
Abordagem/métodos
O desenvolvimento do projecto está planeado em várias etapas, sendo as duas primeiras pesquisa/levantamento e mapeamento/documentação.
1. Pesquisa/levantamento
Nesta fase li bibliografia relacionada com o tema e fiz o levantamento de alguns lavadouros com base na informação encontrada no arquivo e na Internet.
2. Mapeamento/documentação
A consulta do documento disponível no site da Câmara Municipal da Maia motivou-me a mapear os lavadouros, para além da sua documentação fotográfica. A elaboração do mapa permitirá a qualquer pessoa encontrar facilmente estes lavadouros, visitá-los ou até, quem sabe, utilizá-los. O mapa inclui uma observação sobre o estado e o uso atual de cada lavadouro, especificando se é ou não possível a sua utilização à data das fotografias. Na página dedicada à localização dos lavadouros, peço a quem conheça algum ainda não documentado que entre em contacto. Alguns dos lavadouros encontrei por acaso ou através de informações fornecidas por habitantes locais.
A documentação assenta-se essencialmente em fotografias realizadas nos lavadouros, acompanhadas de um pequeno texto sobre a experiência. A metodologia assenta na observação, na escuta e no diálogo, o que implica tempo e disponibilidade para habitar o lugar. Por essa razão, estabeleci como princípio não fotografar mais do que três lavadouros por dia. O que procuro documentar não é apenas a arquitectura ou a materialidade do espaço, mas também o momento específico em que o encontro: a luz, a atmosfera, o estado e vestígios de uso. O registo fotográfico é feito com uma Canon EOS R6 Mark II e objectiva RF 35mm, recorrendo a diferentes planos e ângulos dos lavadouros e dos objectos que neles se encontram. Decidi que a última imagem de cada série fosse apresentada a preto e branco, como forma de evocar a ausência de imagens de arquivo histórico. Este gesto procura estabelecer uma ponte simbólica com o passado, sugerindo uma memória visual que muitas vezes não foi preservada ou documentada.
Referências
Bibliografia
Referência cartográfica de lavadouros públicos realizada pela Câmara Municipal da Maia
LUGARES DO COMUM Guia de Avaliação e Interpretação do Espaço Público
Sousa, Beatriz. As lavadeiras: até que a água (se)pare. Dissertação de mestrado em Fotografia, Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, Porto, 2022.
Nofre, Olalla. ELS SAFAREIGS PÚBLICS DE L’ÈPOCA CONTEMPORÀNIA A CATALUNYA Una reivindicació dels safareigs amb perspectiva de gènere. Treball final de grau d’arqueologia, Universitat de Barcelona, 2023.
Darmon, Chloé. Habitar a Água: os lavadouros públicos do Porto — uma experiência das mulheres na cidade moderna. Dissertação de mestrado, Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, 2020.
Augé, Marc. Não-Lugares: Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade. Lisboa: 90 Graus Editora, 2012.
Zumthor, Peter. Atmosferas. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2006.
Outros projectos
Lavadouro do Teatro do Silêncio
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Cinema no Estendal do Coletivo Pátio
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Notícias e artigos
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