Sobre
Que lavadouros públicos existem em Vila do Conde? Onde? Quantos ainda estão em uso? Como gerar novos espaços de encontro em volta da água?
Lavadouro é um projecto documental e artístico que tem como principal objectivo contribuir para o reconhecimento da importância dos lavadouros públicos, através do seu mapeamento, documentação, transformação e visibilização.
A ideia de voltar a atenção para os lavadouros surgiu ao ler um artigo sobre a recuperação de lavadouros públicos em Lisboa, alguns destes transformados para acolher projectos artísticos.
A principal motivação para situar este projecto em Vila do Conde foi a constatação da inexistência de um arquivo fotográfico dedicado aos lavadouros públicos do concelho.
A sua implementação está planeada para decorrer em várias fases: pesquisa e levantamento, mapeamento e documentação, investigação, exposição/instalação.
No blog, partilho fotografias de diferentes lavadouros públicos que vou visitando, assim como o mapeamento dos lavadouros do concelho de Vila do Conde. Acompanha através da etiqueta Lavadouro.
Contextualização
A água no espaço público não se limita a uma função utilitária, está associada também a lugares de encontro, de memória e de partilha. Olhando atentamente para a relação entre água, ecologia social, espaço público e arte, percebe-se que estes elementos estabelecem um diálogo profundo, num ciclo contínuo em que cada um influencia e é influenciado pelo outro. A presença da água pode transformar um lugar num cenário para experiências colectivas.
O espaço partilhado surge como um território essencial para a interacção social, entre conhecidos e desconhecidos, que presta serviços e gera valor, independentemente de se enquadrar em padrões convencionais de estética ou qualidade. Quando as pessoas se conectam em rede, de forma horizontal, abrem caminho para processos mais democráticos. O desafio está em encontrar formas de habitar e cuidar esses espaços com sensibilidade, reconhecendo o seu potencial como agente de ligação.
O lavadouro público surgiu inicialmente em Paris, no século XIX, e não tardou a espalhar-se por toda a Europa. Alguns são autênticas obras de arte. Em Portugal os lavadouros surgiram com maior densidade no Norte, devido ao desenvolvimento da indústria têxtil. A “revolução da água” desempenhou funções muito importantes na sociedade, nomeadamente ao nível da higiene. Os lavadouros vieram facilitar o acesso à água potável, antes recolhida directamente dos cursos de água, e melhorar as condições de trabalho das lavadeiras. Em vez de lavarem a roupa de joelhos no rio, passaram a fazê-lo de pé, em tanques cobertos. Além disso, alguns destes espaços proporcionavam locais para estender a roupa nas proximidades, evitando que tivessem de transportar à cabeça o peso da roupa molhada. Numa época em que eram afastadas do espaço público, os lavadouros tornaram-se para as mulheres lugares de refúgio, de discussão, de diálogo e interação com outras mulheres da sua comunidade, ainda que associados à realização de uma tarefa doméstica e à vista de todos. A posterior “domesticação da água” levou ao enfraquecimento destes laços tão importantes.
Ainda que alguns dos lavadouros já não sejam usados para a função para a qual foram criados, continuam a ser bens arquitectónicos de uso municipal, localizados em espaços públicos ao serviço dos cidadãos.



Teresa Santos

Teresa Santos

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Teresa Santos
Foi por acaso que encontrei um lavadouro em Santa Maria da Feira, datado de 1969. Descia uma rua quando ouvi o som da água a correr — segui-o, e lá estava ele. Cheguei a pensar em continuar o passeio e voltar mais tarde, mas era um dia de calor intenso, e o que encontrei nas redondezas foram ruas hostis: sem passeios, expostas ao sol. Em contraste, o lavadouro oferecia sombra, frescura e o som sereno da água. Decidi ficar ali, naquele oásis.
Enquanto observava, fui registando com o telemóvel. Chamavam-me a atenção os reflexos, a transparência da água, os objectos do dia-a-dia que habitam estes lugares e os sinais que o tempo deixou. Sentia alguma estranheza por parte de quem passava — afinal, quem tem tempo para estar num lavadouro apenas a olhar?
Este momento confirmou-me algo que já intuía: os lavadouros são espaços de confiança, onde se pode deixar algo com a certeza de que estará lá ao voltar. Durante o tempo em que permaneci ali, um homem aproximou-se. Lavou as luvas: primeiro ainda calçadas, depois esfregando-as na pedra e mergulhando-as na água.
Tal como alguns espaços culturais e espectáculos, estes são lugares livres de publicidade e onde é possível estar e conviver sem consumir.
Santa Maria da Feira, 2025
Teresa Santos
Referência cartográfica
Referência cartográfica de lavadouros públicos realizada pela Câmara Municipal da Maia.
Projectos
Durante a minha pesquisa, encontrei vários projectos artísticos que têm como motor lavadouros públicos.
Lavadouro do Teatro do Silêncio
“Estendal” Projeto de Arte Urbana em Lavadouros Públicos
Cinema no Estendal do Coletivo Pátio
Notícias
Encontram-se na Internet diversas notícias sobre o uso de lavadouros, recuperação, requalificação, etc. que reforçam a importância destes lugares.
Famalicão Nem as temperaturas geladas afastam Laurinda de lavar roupa no tanque público
Freguesia do Vau celebra aniversário com requalificação do lavadouro
Requalificação do Lavadouro do Parque de Merendas de Sines
Nasceu o Jardim do Lavadouro em Trajouce
Frases
Algumas das frases que têm acompanhado o projecto.
“Estou a trabalhar com inteligência, com os nervos e… os músculos, mas também com o coração.” Maria Lamas
“Devemos defender o direito de experimentar outros modos de existência mais virtuosos e solidários: é hora de frustrar as paixões tristes que nos minam, atiçadas pela amarga sensação de sentir nossa própria inutilidade, para substitui-las pela lógica inversa. Em outras palavras, a alegria de se envolver em assuntos comuns e de se sentir plenamente envolvido no desenvolvimento de nossos destinos individuais e coletivos. Caso contrário, é provável que a fúria de todos contra todos se torne o traço dominante da época.” Eric Sadin em entrevista.
Bibliografia
Dissertações de mestrado e guias em que me inspirei para imaginar este projecto.
As lavadeiras: até que a água (se)pare
ELS SAFAREIGS PÚBLICS DE L’ÈPOCA CONTEMPORÀNIA A CATALUNYA Una reivindicació dels safareigs amb perspectiva de gènere
LUGARES DO COMUM Guia de Avaliação e Interpretação do Espaço Público