Lavadouro

Processo Lavadouro

14/05/2026

Lavadouro. Porquê?

Porque fotografo lavadouros?
Há neles a memória de um lugar de encontro e partilha entre mulheres — um lugar com voz, que estou a aprender a escutar.
Há também o contacto com a água, com a pedra, com a vegetação que cresce sem pedir licença. Elementos que têm a capacidade de reequacionar as prioridades, de pôr os pés na terra quando o mundo acontece demasiado rápido e violentamente.
E há qualquer coisa mais pessoal. Depois de tantos anos entre lugares, a fotografar estes espaços fui criando raízes na minha própria terra — como se o acto de documentar o que existe fosse também uma forma de pertencer.
Agora que o trabalho é atribuído maioritariamente às máquinas, talvez o lavadouro possa ser um lugar de repouso e contemplação, onde assistir à passagem do tempo na água que corre ou na escassez da sua ausência.
Porque um refúgio para o pensamento e o encontro com o outro é necessário.

08/05/2026

Ponto da situação

Acabei de documentar todos os lavadouros que encontrei.
Em 25 Freguesias e Uniões de Freguesia, fotografei e mapeei 38 lavadouros no total: 19 activos e 19 inactivos. As datas mais antigas que aparecem inscritas são 1845 Guilhabreu – Fonte da Pedra, 1863 Vilar do Pinheiro – Águas Férreas e 1953 Fornelo – Vila Verde.
Houve lavadouros que encontrei pelos nomes da ruas, nos quais aparecem palavras como: fonte, fonte nova, ribeiro, poço novo, monte, gândara, lavadeiras, moinho, poça, águas férreas, regadas, rio, tanques.

Haikus

Registo de ausências

Falando com pessoas das freguesias nas ruas e nas Juntas de Freguesia, fui percebendo o que existiu e já não existe, e o que nunca chegou a existir.
Em Aveleda e Labruge nunca houve lavadouro público. Em Labruge, as pessoas iam lavar ao rio e era assim que lhe chamavam: o lavadouro do rio.
Em Macieira da Maia havia dois. Um foi demolido aquando da construção de uma escola; o outro estava em terreno privado e desapareceu por razões que não sabiam precisar.
Em Azurara existiu pelo menos um, mas ficou ao abandono. Hoje é provável que a vegetação já o tenha envolvido por completo.
Em Mindelo, algumas pessoas guardam a ideia de ter havido um lavadouro na zona da Gândara. Fui à procura e não encontrei. Também me falaram da existência de um tanque rústico, mas situado num terreno privado.
Em Vila Chã, um lavadouro junto à praia foi destruído.
Destes lavadouros resta a memória de quem ainda se lembra deles.
Falaram-me de um na Rua de Medados em Touguinha que não consegui encontrar.

24/04/2026

Ponto da situação

Contactei algumas Juntas de Freguesia, encontrei e documentei novos lavadouros.
Comecei a desenhar o Boletim Lavadouro.

Questões

O que faz com que um lavadouro esteja activo ou inactivo? Pode estar activo e inactivo ao mesmo tempo?
Fazer publicação dedicada aos lavadouros que desapareceram ou que nunca existiram?

Vídeo

Teste de vídeo, captando o movimento da cáustica e o som da água.

Trípticos

10/04/2026

Reflexões

Tem-me motivado o encontro com os lavadouros e sua documentação.
Sem um enamoramento por estes lugares, certamente não realizaria o projecto.
Suzanne Daveau afirmava a importância do amor, paixão e identificação, mesmo em relação a coisas aparentemente desprovidas de vida, no progresso do conhecimento; não se pode descobrir algo de novo sem que o investigador se implique por completo no tema que tenta elucidar.
Estou a criar um mapa afectivo de um território antes desconhecido, e parece-me uma forma interessante de conhecer o concelho.
Ler enquanto se faz é uma forma de não ficar fechado dentro do próprio processo; alimenta o olhar, provoca perguntas que a prática sozinha não colocaria, e pode abrir caminho para outras formas de fazer.
Neste momento ainda estou muito dentro da experiência e das fotografias. Penso que vou precisar de algum distanciamento antes de voltar a olhá-las para perceber realmente o seu potencial.

Ponto da situação

Durante este tempo documentei novos lavadouros.
Como próximos passos, pretendo contactar as Juntas de Freguesia para averiguar a existência de outros lavadouros por documentar, e explorar materiais, como impressão em papel impermeável e tintas que se revelam na presença da água.

Questões

O projecto só é válido se fotografar todos os lavadouros?
Os lavadouros têm uma frente?
Como devolver ao lugar e às pessoas que o habitam?
Como fazer uma chamada aberta à população?
Faz falta presença humana nas fotografias?
Som (ex.: diferentes sons da passagem da água) e vídeo (ex.:movimento das cáusticas e da água) são necessários para completar a vivência dos lavadouros?

Trípticos

Associei por temas que tivessem pelo menos três fotografias, que me pareceu ser um número suficiente para começar a ver um padrão. É uma forma de cartografar o olhar, de perceber o que procuro, o que me prende repetidamente.
A ordem das fotografias faz com que o conjunto funcione melhor ou pior, pelo que experimentei diferentes posições.
Quando voltei a fotografar os lavadouros, depois de fazer alguns trípticos, já ia com a certeza de coisas que queria fotografar e de como queria fotografar. Ainda assim, há sempre novidades que fazem com que não caia numa automatização.

Cadernos

Alguns testes de formas analógicas de partilhar fotografias, no formato de caderno. Depois de uma primeira experiência com agrafos, experimentei costurar, por sugestão da Miriam, percebendo os limites da máquina de costura.

Manifesto

Abordo os lavadouros a partir de uma cartografia sensível, em que todo o corpo está envolvido. O lavadouro é, também ele, um corpo com a capacidade de tocar. Deixo-me comover com as suas diversas particularidades e vagueio livremente pelo espaço, no qual não estou apenas de passagem. Há algo aqui que me transmite a perspectiva de um futuro desejável.
Há passados que importa resgatar, aqueles que, ao ficarem no passado, nos privaram do oxigénio que nos permitia respirar. É urgente construir lugares tranquilos onde contemplar com delicadeza, longe dos excessos da sobremodernidade. Um lavadouro é um lugar aberto, furado, em comunicação, onde a tensão entre exterior e interior é mínima. O suficiente para oferecer refúgio.
Não é natureza, mas contém natureza. Lembra o ecossistema frágil da água do qual depende. O seu potencial de encontro e de comunidade pode promover a capacidade individual e colectiva de descolonizar a imaginação. Talvez o meu entusiasmo por estes espaços ​​seja, também, a resposta à minha estranheza em relação ao mundo.

Texto inspirado por estes fragmentos.

Grito imagens
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